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DROP DEAD FRED ~ 25 ANOS

O filme Drop Dead Fred nasce a partir do encontro dos argumentistas Tony Fingleton e Carlos Davis com o actor inglês Rik Mayall em Londres. Queriam fazer um filme que preservasse as qualidades de comediante de Rik, amplamente demonstradas no seu programa de sucesso na TV, The Young Ones. Por essa altura, uma amiga mútua, Elizabeth Livingston estava a escrever um conto acerca do amigo imaginário da filha, de nome Drop Dead Fred.  E daí, dessa junção de ideias, nasceu o filme.

Elizabeth (Phoebe Cates)  é uma jovem deprimida, reprimida e desesperada. Separada do marido mulherengo, sem trabalho e com uma mãe controladora (Marsha Mason), não sabe para onde se virar.  Até que entra de novo na sua vida o seu amigo imaginário da infância, Fred (Rik Mayall)  que  vai ajudar, desajeitada e truculentamente, a sair dos seus problemas. Estará ela melhor sem ele?

O filme foi produzido pela Working Title, a companhia que antes fora responsável por filmes como My Beautiful Laundrette e Wish you Were Here e que depois irá produzir, entre muitos outros sucessos, filmes como  Barton Fink, Four Weddings and a Funeral, The Big Lebowsky, Bridget Jones ou Theory of Everything.

A Working Title foi buscar Ate de Jong, realizador de origem holandesa que tinha vários filmes de sucesso na Europa e que tinha feito uma bem sucedida transição para os Estados Unidos, trabalhando em Miami Vice e em Highway to Hell, com Ben Stiller,

Distribuido pela New Line originalmente, Drop Dead Fred foi agora recuperado, 25 anos depois da estreia, pela Fox, o segundo  filme de Ate de Jong a ter este tratamento de luxo, sendo que o primeiro foi  Highway to Hell que o Fantasporto exibiu em 2016.

A rodagem inicia-se ainda em 1990 e os estúdios principais são em Minneapolis, no Paisley Park Studio, propriedade e lar do músico Prince. Consta mesmo que, à noite, Prince ia ver os “gadgets” usados por Fred no filme.  Depois de um início atribulado – o operador de câmara principal foi substituído ao fim de 4 dias  e uma onda de mosquitos que  incomodou muita gente -  a rodagem correu suavemente e com boa disposição. Sobretudo, dentro do orçamento previsto de 6 milhões de dólares.

A montagem  viria a reduzir o filme  de duas horas para os 103 minutos finais, Uma das cenas cortadas foi filmada em Paisley Park que, no filme, é o local de encontro para todos os amigos imaginários quando nada têm que fazer.  Essas imagens, que entretanto se acreditava terem sido perdidas, foram reinseridas  no Bluray recentemente lançado.

Aquando da pré-apresentação  de Drop Dead Fred, o público gostou do que viu mas não apreciou muito o final da história. Acharam que a personagem principal não deveria morrer. E embora ele não morresse mesmo, decidiu-se tornar mais claro que Drop Dead Fred  continuaria com as suas brincadeiras. As respostas do público a este novo final foram excelentes. 

A banda sonora  que pertence a Rand Edelman, o compositor de Kindergarten Cop e de Ghostbusters II teve muito sucesso também.

A  distribuidora New Line que estava a pensar fazer um lançamento do filme com  150 cópias, muitas  cópias já para um filme independente, resolveu alargar para as 900 cópias , tal o sucesso que o filme já prenunciava . De facto, ficou no “Top Box Office” por várias semanas e foi vendido para mais de 50 países.

Drop Dead Fred foi um dos filmes mais cativantes  e intrigantes no início dos anos 90. Classificado para maiores de 12 anos, o filme inicia-se com uma menina que diz à mãe que a sua história para adormecer é um “pile of shit”.  Nem mais.  Mas a revelação foi sobretudo Rik Mayall , o amigo inconveniente, vestido de verde e disparatado que, na realidade, chefia a anarquia nesta comédia  sobre a auto estima e a coragem de estar sozinha.  A reacção incial dos críticos ao filme foi mista., sobretudo pelo seu lado anárquico, totalmente inapropriado para crianças. Mas houve também quem lhe descubrisse inegáveis qualidades e lhe reconhecesse um conteúdo subliminar com múltiplas e sérias leituras, muito para além da brincadeira e do caos.  E até os psicólogos da Califórnia o usaram depois como instrumento de trabalho.

Lentamente, o filme juntou uma sólida base de adeptos (entre os quais a minha pessoa,  que o vi em Madrid nos anos 90),  e começou a aparecer, de ano para ano, em cada vez mais listas de filmes favoritos de todos os tempos.

Segundo o próprio realizador Ate de Jong, que foi membro do Juri do Fantasporto 2016, “ é um prazer saber da crescente apreciação de Drop Dead Fred. Começámos por querer fazer um filme divertido mas sabíamos que a intenção era falar do abuso de crianças como o verdadeiro tema do filme. Este filme é também um testamento ao enorme talento de Rik Mayall e a todos os outros que nele participaram. Há um sentimento de humildade em ver o impacto  que o filme ainda tem, tanto em adultos como em crianças”. E acrescenta ”May Drop Dead Fred live forever!”. Concordamos.

Beatriz Pacheco Pereira

 

Ficha Técnica:

Realização: Ate de Jong; 1991 com Rik Mayall, Phoebe Cates, Marsha Mason, Tim Matheson, Carrie Fisher. País: Estados Unidos/ Reino Unido.  Duração: 103’

 

 

No dia em que começamos a escrever este texto, 27 de Dezembro de 2016, morreu Carrie Fisher que, em Drop Dead Fred, interpreta o papel de  Janie. 

Toda a sua vida respirou cinema e música . Era filha de Debbie Reynolds (que morre um dia depois de Carrie), ela por sua vez a inesquecível actriz da obra-prima que é Singing in the Rain, e também uma enorme perda para o cinema.   O pai de Carrie era Eddie Fisher, o homem com quem mais tarde Elizabeth Taylor viria a casar, para logo depois  o abandonar por Richard Burton. Foi divorciada do músico Paul Simon e amiga de Michel Jackson. Amiga também de Meryl Streep que a interpreta , sob outro nome, em Postcards from the Edge,  filme baseado num romance da própria Carrie que também escreveu o guião .

Carrie Fisher que viveu muito voluntariamente numa sombra relativa (dizia “Nasci no meio da celebridade. O único que posso fazer é tentar atenuá-la”), foi uma “script doctor” muito requisitada de filmes como Hook, Last Action Hero ou  Sister Act .

Porque não podemos deixar de a homenagear, ela que será para sempre a eterna Princesa Leia de Star Wars, saúde-se aqui a actriz, argumentista e escritora que nos deixou prematuramente. 

Se Drop Dead Fred aqui estivesse, decerto faria algumas patifarias em honra de Carrie e, já agora, de Debbie.

Beatriz Pacheco Pereira